O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou nesta quinta-feira (16) que o terrorismo tem origem na “esquerda radical” e anunciou uma coalizão global para combater o que classificou como uma “ameaça transnacional” que estaria sendo ignorada pela comunidade internacional. A declaração foi feita durante a abertura da Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político, em Washington, que reuniu representantes de mais de 60 países .
Em um discurso de cerca de 30 minutos, Rubio descreveu o terrorismo político de esquerda como um “mal peculiar e único”, movido pelo “ódio pela civilização” . “É uma revolta dos piores contra os melhores, uma revolta dos fracos e covardes contra os fortes e bons”, afirmou o secretário, acrescentando que a violência é perpetrada “por aqueles que não conseguem construir, não conseguem criar, não conseguem realizar grandes coisas, e descontam sua vingança no mundo por sua própria incapacidade” .
O “ponto cego” do contraterrorismo
Rubio argumentou que, durante 25 anos, os esforços internacionais de contraterrorismo se concentraram quase exclusivamente no extremismo islâmico — uma estratégia que, segundo ele, funcionou, reduzindo em 97% as mortes por terrorismo jihadista na Europa entre 2015 e 2024 . No entanto, afirmou que a violência de extrema-esquerda permaneceu como um “ponto cego” nas doutrinas de segurança ocidentais.
“Mesmo hoje, a mera ideia de que o terrorismo de extrema-esquerda possa constituir uma ameaça séria é tratada como uma ilusão da direita, ou pior, como uma trama fascista perigosa”, criticou o secretário, citando a cobertura da imprensa e o tratamento dado por instituições acadêmicas ao tema .
O secretário afirmou que a violência de esquerda foi “não apenas desculpada, mas tratada como sagrada, uma classe protegida por si só” . Citou como exemplo os protestos de 2020 nos EUA, após a morte de George Floyd, que classificou como “motins” em que “criminosos e extremistas queimavam e saqueavam as grandes cidades da América” enquanto governos municipais se recusavam a processar os envolvidos .
Ameaça transnacional e conexões internacionais
Rubio enfatizou o caráter transnacional do terrorismo de esquerda, afirmando que militantes da Antifa e grupos aliados viajam entre continentes para coordenar ataques, compartilhar informações por canais criptografados e movimentar fundos por redes clandestinas .
O secretário também acusou Cuba e Irã de apoiarem esses movimentos. “A vasta rede de inteligência e ideológica do regime cubano ajudou a forjar a extrema-esquerda em nosso país e em nosso hemisfério, e permanece inextricavelmente ligada a grupos e movimentos de extrema-esquerda em todo o Ocidente e além”, afirmou . Sobre o Irã, disse que suas redes de facções estão “cada vez mais intimamente ligadas a grupos militantes de esquerda em todo o mundo”, embora não tenha apresentado evidências concretas para ambas as acusações .
Nova estratégia e críticas
Rubio anunciou que os EUA já designaram quatro grupos europeus — Antifa Ost, Federação Anarquista Informal/Frente Revolucionária Internacional, Justiça Proletária Armada e Autodefesa de Classe Revolucionária — como Organizações Terroristas Estrangeiras, oferecendo recompensas de até US$ 10 milhões por informações sobre seu financiamento . O governo Trump também prometeu novas designações em breve.
A estratégia antiterrorista da administração Trump para 2026, divulgada em maio, identifica três ameaças primárias: “terrorismo islâmico”, “narco-terrorismo” e “extremistas violentos de esquerda, incluindo anarquistas e antifascistas” . O documento não faz menção à violência de extrema-direita ou a grupos neonazistas, o que tem gerado críticas.
Onze parlamentares democratas escreveram a Rubio na véspera do evento questionando as evidências para o novo foco e chamando a estratégia de “documento politicamente partidário” . “Instamos veementemente o Departamento a voltar seu foco para um conjunto de missões sérias que, por definição, seja apolítico, baseado em dados e enraizado na realidade”, escreveram os congressistas .
Ex-funcionários do Departamento de Estado ouvidos pela CNN afirmaram que a ameaça da “esquerda radical” não se compara à representada por grupos como o Estado Islâmico ou extremistas de direita . Ian Moss, ex-coordenador-adjunto de contraterrorismo no governo Biden, afirmou que “a realidade e os dados, tanto aqui nos EUA quanto no exterior, indicam que o extremismo de esquerda não é e nunca foi o tipo ou o grau de ameaça que o terrorismo de extrema-direita ou a violência jihadista representaram” .
Evidências e controvérsias
O Departamento de Estado divulgou estatísticas alegando que “grupos de extrema-esquerda foram responsáveis por 63% de todos os ataques ou complôs antigovernamentais registrados” nos EUA em 2025, além de três das quatro mortes por atentados antigovernamentais no período .
No entanto, uma análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) publicada em 2025 constatou que, embora a violência de esquerda tenha aumentado nos EUA na última década, “aumentou a partir de níveis muito baixos e permanece bem abaixo dos níveis históricos de violência perpetrada por atacantes de extrema-direita e extremistas islâmicos” .
O evento de quinta-feira contou com a participação de delegações de 67 países, embora muitas não fossem lideradas por ministros das Relações Exteriores, mas sim por funcionários técnicos ou diplomatas de nível intermediário . A secretária de Educação, Linda McMahon, o vice-chefe de gabinete Stephen Miller e o secretário do Tesouro, Scott Bessent, também participaram da abertura .
“Através do compartilhamento de inteligência e informações, através de uma estratégia coordenada de aplicação da lei, através de asfixia financeira e desarticulação, desmantelaremos essas redes tijolo por tijolo”, afirmou Rubio. “Chegou a hora de as pessoas do mundo civilizado se defenderem, de se manterem unidas contra essa escuridão que se aproxima” .





