O recado de Mendonça ao Governo Lula: Interferência na PF é tentativa de obstrução

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O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, disparou um alerta silencioso, mas contundente, nos corredores do poder em Brasília. Contrariado com a ofensiva do Ministério da Justiça de determinar o retorno de mais de cem policiais federais que estavam cedidos a órgãos da administração pública, Mendonça avisou ao governo Lula que, se a medida atingir a Corte, poderá ser interpretada como tentativa de obstrução de Justiça — e, pior, levar à abertura de uma nova frente de investigação contra o Palácio do Planalto .

A jogada do governo petista, que já notificou mais de 50 órgãos para devolver delegados cedidos, soa como mais um capítulo na velha história de aparelhamento das instituições sob o pretexto de “reforço no combate ao crime organizado” . A versão oficial não convenceu nem dentro da própria Polícia Federal. Um integrante da corporação ironizou nos bastidores: “Esse motivo do governo não é verdadeiro. É como jogar um copo d’água no Rio Tietê e dizer que isso vai melhorar a qualidade da água” .

A Mira nas Investigações Sensíveis

A preocupação de Mendonça não é casual. Ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro, ele é hoje o relator de duas das investigações mais explosivas em curso no STF: o caso Master e o inquérito sobre os desvios bilionários em aposentadorias do INSS — escândalos que atingem parlamentares de diferentes espectros políticos e, pasme, alguns de seus próprios colegas no Supremo .

Atualmente, quatro delegados da PF atuam diretamente em gabinetes de ministros do STF — dois com o próprio Mendonça, um com Luiz Fux e outro com Alexandre de Moraes, o algoz do clã Bolsonaro nos inquéritos das fake news e da trama golpista . A determinação do Ministério da Justiça, ao menos por ora, poupou o STF. Mas a ameaça paira como uma espada de Dâmocles sobre o andamento das apurações que podem comprometer o governo a menos de três meses das eleições .

Um “Copo d’Água no Tietê” ou Interferência Calculada?

A leitura nos círculos do Supremo é clara: o movimento do governo Lula abriria caminho para o Planalto interferir no curso das investigações . A cena lembra os tempos sombrios do governo Bolsonaro, que, segundo amplamente documentado, afastou ou puniu quase 20 delegados da PF que ousaram investigar seus aliados .

A ironia é cruel. Enquanto o governo Lula se vende como o “restaurador da autonomia da PF”, a ordem de Lula para o retorno dos delegados foi dada ainda em abril, sob a justificativa de que servidores estariam, nas palavras do presidente, “fingindo trabalhar” fora da corporação . Só ficarão fora, disse Lula, aqueles que forem secretários de Estado .

O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou na última sexta-feira (3) que ainda não há definição sobre o eventual retorno dos delegados que atuam no STF . Mas o recado de Mendonça já foi dado: mexer nesse vespeiro pode custar caro ao governo — e abrir uma crise institucional que o Planalto, às vésperas do pleito, dificilmente conseguirá controlar.

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