O senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), lançou durante uma viagem a Washington uma proposta que resgata a memória de um dos mais ambiciosos — e controversos — projetos de integração continental das últimas décadas: a criação de uma zona de livre comércio que englobe Brasil, Estados Unidos, México e Canadá, batizada por ele de AFTA (Acordo de Livre Comércio das Américas).
A ideia, apresentada em meio às discussões sobre a imposição de um tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, é uma clara tentativa de reposicionar o Brasil no xadrez geopolítico mundial, afastando-o da tradição sul-americana e aproximando-o do gigante norte-americano. Ao propor “cortar a letrinha N” do antigo NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio), Flávio sugere não apenas a adesão brasileira ao bloco, mas uma ampliação do pacto para toda a América, um movimento que ecoa as intenções por trás da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) dos anos 1990 e 2000, duramente rejeitada por governos progressistas da época.
O Efeito Milei e a Complementaridade Econômica
O principal combustível para a proposta de Flávio é o acordo comercial recentemente assinado entre a Argentina de Javier Milei e os Estados Unidos de Donald Trump. Segundo o senador, o pacto, que zerou tarifas para centenas de produtos argentinos, serve como um modelo bem-sucedido do que ele pretende negociar. “O presidente Milei, da Argentina, conseguiu um acordo com os Estados Unidos que, para centenas de produtos, a tarifa é zero”, afirmou Flávio, que vê na complementaridade entre as economias brasileira e americana uma “avenida de oportunidades” para atrair investimentos e ampliar o comércio.
A admiração pela estratégia de Milei, no entanto, esbarra em uma realidade institucional complexa. O acordo de Buenos Aires com Washington gerou forte incômodo no governo Lula, que vê na iniciativa um potencial para “gerar distorções” e criar “barreiras regulatórias” dentro do Mercosul, bloco do qual a Argentina faz parte. Como membros do bloco, Brasil e Argentina compartilham a Tarifa Externa Comum (TEC), e as normas do Mercosul, em tese, proíbem negociações individuais de livre comércio com terceiros países. A proposta de Flávio, portanto, não é apenas um movimento comercial, mas um desafio direto à estrutura e à relevância do Mercosul, sugerindo um alinhamento mais próximo com os interesses dos EUA em detrimento da integração sul-americana.
Um Retrospecto Histórico e Desafios Internos
A sigla AFTA, cunhada por Flávio, carrega um peso histórico. Curiosamente, o nome “AFTA” foi inicialmente considerado pelos americanos para batizar a Alca, mas descartado devido à associação em português e espanhol com “aftas” bucais e a febre aftosa, um tema sensível para países exportadores de carne. A ideia de uma área de livre comércio continental sempre foi vista com desconfiança por setores da esquerda latino-americana, que a enxergavam como um mecanismo de subordinação econômica e militar aos Estados Unidos, e sua rejeição em 2005, liderada por Hugo Chávez, marcou um ponto de virada na política regional.
Além do desafio diplomático com os parceiros do Mercosul, a proposta enfrenta resistências internas. A fala de Flávio, carregada de críticas ao governo Lula, a quem acusou de “lamber as botas da China”, insere a discussão comercial em um campo de batalha político-ideológico polarizado. A iniciativa, embora apresentada como uma solução para o tarifaço e para o desenvolvimento nacional, parece mais um capítulo na estratégia de oposição ao governo atual do que um projeto de Estado maduro, esbarrando em obstáculos práticos e históricos que vão muito além da vontade de um pré-candidato.





