A menos de uma semana do prazo final de 15 de julho, a decisão do governo Donald Trump sobre a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros paira como uma espada de Dâmocles sobre a economia do país. O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou nesta quinta-feira (9) que a conclusão sobre o “tarifaço” sairá “muito em breve”, mas admitiu que “ainda há uma grande distância” entre as posições dos dois países .
A investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da legislação americana, acusa o Brasil de adotar práticas comerciais consideradas desleais . Entre os pontos citados estão a suposta preferência ao sistema de pagamentos Pix em detrimento de serviços internacionais, tarifas “desleais e preferenciais”, falhas no combate ao desmatamento ilegal, e deficiências na proteção da propriedade intelectual e no combate à corrupção .
Diante das acusações, o governo brasileiro apresentou um “roteiro” aos americanos, reforçando compromissos em áreas sensíveis para Washington, como comércio digital, proteção à propriedade intelectual, medidas anticorrupção e combate ao desmatamento . No entanto, fontes do governo indicam que as negociações avançam sem direção clara, pois os EUA não sinalizaram quais pontos estão dispostos a negociar .
O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, afirmou que as conversas continuam, mas destacou que o Brasil não aceita discutir o fim do imposto de importação do etanol americano, uma das demandas levantadas . “O presidente Lula defende claramente que o tema do etanol não seja tratado nessa negociação, e mais, não seja tratado sem que nós também tratemos da questão do açúcar, que é sobretaxado nos Estados Unidos”, declarou .
A Dimensão Política e a Atuação de Flávio Bolsonaro
O impasse comercial ganhou contornos políticos e eleitorais com a participação do senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), nas audiências públicas realizadas em Washington. O senador pediu que o governo Trump adie a decisão sobre as tarifas até após as eleições de outubro, argumentando que a imposição agora beneficiaria politicamente o governo de Luiz Inácio Lula da Silva .
“Toda tarifa adicional fortalece justamente o governo que se pretende pressionar”, argumentou Bolsonaro em sua apresentação . O senador também afirmou que “novas tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros dariam ao atual governo precisamente a vitória política que ele vem orquestrando” .
A investida do senador foi duramente criticada pelo Palácio do Planalto. Em nota, o governo brasileiro classificou como “deplorável que, mais uma vez, membros da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender a interferência estrangeira no Brasil” . A pesquisa Quaest divulgada em junho já indicava uma opinião pública dividida sobre o assunto: 47% dos brasileiros concordavam com a acusação de Lula de que Bolsonaro teria incentivado a tarifa, enquanto 35% acreditavam na versão do senador, que nega a acusação .
Perspectivas e Cenários
A expectativa no governo brasileiro é pessimista. A avaliação é de que a tarifa de 25% será, de fato, implementada . Ainda assim, a equipe econômica trabalha com cenários alternativos, acreditando que uma eventual reeleição de Lula em outubro poderia reabrir espaço para negociações com a administração Trump .
Enquanto isso, o setor privado americano também se mobilizou contra a medida. Empresas como Coca-Cola, Nestlé, Tesla, Faber-Castell, eBay e Siemens enviaram comentários ao USTR pedindo que os EUA não implementem a tarifa adicional . Representantes de setores como arroz, gelatina, sementes e agropecuária alertaram que as tarifas elevariam custos para consumidores americanos e desorganizariam cadeias produtivas .
O prazo legal para a decisão final expira em 15 de julho . A menos de uma semana do desfecho, o cenário é de impasse, com os dois países mantendo “visões distantes” sobre as práticas comerciais, em meio a um jogo de xadrez que envolve economia, política e a disputa eleitoral brasileira .





