Em uma ofensiva diplomática paralela à negociação oficial do governo brasileiro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) viajou a Washington para participar de audiência pública no Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) e pedir o adiamento das tarifas de 25% sobre produtos brasileiros até depois das eleições de outubro . A estratégia do pré-candidato à Presidência busca, ao mesmo tempo, desvincular sua imagem da crise comercial e enfraquecer a narrativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que classifica as retaliações americanas como ameaças à soberania nacional .
Em documento de 86 páginas enviado ao USTR antes da audiência, Flávio Bolsonaro solicitou a suspensão das tarifas por 180 dias, argumentando que as eleições brasileiras em outubro redefinirão o cenário político e a viabilidade de qualquer acordo negociado . “Impor uma tarifa agora — medida difícil de reverter, que recompensaria os responsáveis pelas ações em questão e puniria aqueles que não as provocaram — seria a pior decisão possível”, afirmou o senador em seu discurso de cerca de cinco minutos .
O principal argumento de Flávio é que as sobretaxas não pressionariam o governo Lula, mas sim o fortaleceriam politicamente. “Elas foram exploradas politicamente pelo atual governo brasileiro. Uma tarifa de 25% penaliza todo o povo brasileiro, exceto justamente as autoridades responsáveis por essas decisões”, declarou . A tese foi repetida em vídeo divulgado após a audiência, no qual o senador escreveu “PT: Tax Party” (“PT: Partido da Taxa”) na mão, emulando o estilo do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro .
A defesa do Pix e a crítica à “censura e corrupção”
Em sua fala, Flávio centrou-se em três temas: o sistema de pagamentos Pix, a suposta “censura” no Brasil e a corrupção . Sobre o Pix, alvo da investigação americana por suposta concorrência desleal a empresas de cartão de crédito dos EUA, o senador afirmou que o sistema “não é um problema a ser corrigido, é uma solução” e que beneficiou diretamente empresas americanas ao ampliar a inclusão financeira .
O senador também criticou o que chamou de “censura” no Brasil, mencionando decisões do Supremo Tribunal Federal contra plataformas americanas, e associou os principais escândalos de corrupção da história recente ao PT, citando Mensalão, Lava Jato e o caso do Banco Master . Segundo Flávio, o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, passou quatro anos “sem um único escândalo de corrupção comprovado” .
A reação do governo Lula e o enfraquecimento da narrativa de soberania
A avaliação do Palácio do Planalto é que Flávio Bolsonaro, ao pedir o adiamento das tarifas em fórum estrangeiro e condicionar a solução à mudança de governo, reforçou os argumentos da Casa Branca para punir o Brasil e enfraqueceu a posição diplomática do país . “Ele simplesmente não condenou o tarifaço. Ao defender o Pix, falando que não deve ser usado fora de países ocidentais, ele ficou ao lado do interesse nacional? Não”, resumiu um representante do governo .
O governo Lula, que tem classificado as tarifas como “ilegais” e “arbitrárias” e enviou ao USTR uma dura carta contestando a investigação , não enviou representantes à audiência pública, por entender que o espaço deve ser ocupado pelo setor privado . A decisão foi criticada por Flávio, que afirmou: “Tinha todo mundo lá, mas não tinha ninguém, nenhunzinho, do governo escalado para fazer a defesa” .
Perspectivas e impacto eleitoral
Apesar dos esforços de Flávio, as chances de o Brasil reverter a decisão dos EUA são consideradas baixas por especialistas e autoridades. O ex-diretor-geral da OMC Roberto Azevêdo afirmou que “a mensagem que recebi foi muito clara: os impostos e as taxas serão implementados” . O próprio governo Lula trabalha com a possibilidade de que as tarifas sejam, de fato, aplicadas a partir de 15 de julho .
No campo eleitoral, a movimentação de Flávio em Washington insere a disputa comercial na corrida presidencial. O senador tenta desconstruir a narrativa lulista de defesa da soberania, argumentando que as tarifas são consequência de políticas do PT e que um eventual adiamento permitiria, se eleito, “entregar a Donald Trump o que Donald Trump quer” — incluindo promessas de desoneração do setor de cartões de crédito, acordos bilaterais que libertem o Brasil do Mercosul e até a cassação de ministros do STF . Para o governo, contudo, a atuação do senador apenas comprova a tese de que os Bolsonaro atuam contra os interesses nacionais, um argumento que Lula pretende explorar até as urnas em outubro .





