A investigação sobre vazamentos de dados sigilosos da Operação Compliance Zero revelou que um perito criminal da Polícia Federal produziu dois dossiês direcionados a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) a partir de informações extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master .
O servidor João Cláudio Nabas, especializado em crimes financeiros, foi convocado para integrar a equipe da operação em novembro de 2025. Segundo os registros internos da corporação, ele acessou os dados do aparelho de Vorcaro em 1º de dezembro e, três dias depois, criou os arquivos intitulados “Moraes.pdf” e “Toffoli e esposa.pdf” . A cronologia dos acessos foi reconstituída pela PF a partir do sistema interno da instituição .
O conteúdo dos documentos
O primeiro arquivo reunia diálogos e menções ao ministro Alexandre de Moraes encontrados no celular do banqueiro. Entre os trechos compilados estava o contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes — documento que, segundo a investigação, foi enviado por ela diretamente ao WhatsApp de Daniel Vorcaro .
O segundo dossiê focava no ministro Dias Toffoli e sua ex-esposa, Roberta Rangel. O conteúdo incluía referências ao resort Tayayá, empreendimento que recebeu aporte de R$ 20 milhões de um fundo gerido pelo cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel . Parte dessas informações foi posteriormente utilizada pela PF para apresentar um pedido de suspeição contra Toffoli no STF .
A sugestão de vazamento e as consequências
De acordo com depoimentos de policiais federais que integravam a força-tarefa, Nabas não apenas produziu os documentos como também sugeriu, por meio de mensagens de áudio, que o conteúdo fosse divulgado à imprensa . Os colegas teriam recusado a sugestão, mas dias depois detalhes do contrato da esposa de Moraes vieram a público .
A PF sustenta que o perito “direcionou seus esforços em sentido contrário ao escopo das investigações, buscando, no material objeto de análise, supostos elementos desabonadores de ministros desta Suprema Corte, com o intuito comprovado de publicizar tais informações por meio da imprensa nacional” .
O inquérito, aberto por determinação do ministro André Mendonça, resultou no cumprimento de mandado de busca e apreensão contra Nabas em maio. Ele foi afastado das atividades e passou a responder por suspeita de violação de sigilo funcional .
Implicações e contexto
O caso ocorre em meio a uma série de polêmicas envolvendo o Banco Master e suas relações com membros do STF. A atuação do ministro Dias Toffoli no caso já havia sido questionada nos bastidores da PF e da PGR, especialmente após decisões consideradas incomuns, como a escolha pessoal de peritos para analisar materiais apreendidos .
Pela legislação brasileira, eventuais investigações envolvendo ministros do STF só podem ser conduzidas mediante autorização da própria Corte, em razão do foro por prerrogativa de função . O foco do inquérito atual é exclusivamente a conduta do servidor suspeito, preservando o direito constitucional ao sigilo da fonte de profissionais de imprensa .
Até o momento, os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli não se manifestaram sobre o caso, e a defesa de Nabas também não se pronunciou .





