Num discurso que transformou uma disputa comercial em ataque pessoal, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva “colocou seu próprio ego acima da realização de um acordo em prol do bem-estar do povo brasileiro” . A declaração, publicada em sua conta no X na madrugada desta quinta-feira (16), veio horas após o governo Donald Trump confirmar a aplicação de uma tarifa de 25% sobre a maioria dos produtos brasileiros, com vigência a partir de 22 de julho .
A taxação, baseada na Seção 301 do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA), atinge setores estratégicos da economia brasileira, embora tenha deixado de fora itens importantes da pauta de exportação, como carne bovina, suco de laranja, café, petróleo e componentes aeroespaciais . Na visão de Rubio, a medida é uma resposta direta à postura do governo petista: “Suas políticas econômicas são prejudiciais tanto para os americanos quanto para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo […] e essas tarifas são o preço por isso” .
A retórica acusatória do secretário de Estado, no entanto, contrasta com a versão oficial apresentada pelo próprio USTR. Em entrevista coletiva, uma autoridade do órgão rejeitou a tese de motivação política, afirmando que a sobretaxa não se trata de “gostar ou não das decisões políticas de outro país” e que as conversas com o Brasil ocorreram em “tom cordial” durante todo o processo . A contradição expõe o caráter híbrido — técnico e político — da crise.
“Grosseiro e arrogante”
A reação do governo brasileiro foi imediata e contundente. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou as declarações de Rubio como “inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros”, acusando o secretário de atacar “de forma grosseira e arrogante” o chefe de Estado de um país amigo . Em nota, o Itamaraty reafirmou que Lula manteve disposição para o diálogo desde o início das tensões, “colocando acima de tudo os preceitos da soberania nacional”, e interpretou a acusação de “ego” como uma referência à “convicção inabalável” do presidente na defesa dos interesses brasileiros .
Nos bastidores do Palácio do Planalto, avaliam-se duas rotas: recorrer à Lei da Reciprocidade e à Organização Mundial do Comércio (OMC) para contestar a medida, ou manter o canal diplomático aberto para tentar reverter a taxação . Fontes do governo apontam que a decisão americana tem um componente político explícito, especialmente num ano eleitoral no Brasil .
Avião sem piloto
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência e um dos principais opositores de Lula, rapidamente capitalizou a crise. Compartilhando a postagem de Rubio em suas redes sociais, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro afirmou que o Brasil está em um “avião sem piloto”, sugerindo que o governo atual é incapaz de conduzir a política externa e proteger a economia nacional .
A aproximação entre o clã Bolsonaro e a administração Trump não é novidade. Em maio deste ano, Flávio esteve em Washington, reuniu-se com Marco Rubio e chegou a pedir que os americanos adiassem as tarifas para depois das eleições brasileiras . A cronologia dos fatos — reunião com Rubio, pressão do USTR e agora o tarifaço — alimenta a percepção de que a ofensiva comercial pode ter sido utilizada como instrumento de interferência na disputa presidencial . A publicação de Rubio, prontamente retuitada por aliados bolsonaristas e até pelo presidente argentino Javier Milei, reforça a suspeita de que o governo Trump atua para favorecer a oposição .






