O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que não é contra o endividamento das famílias quando o crédito é usado para comprar bens e ampliar patrimônio. A declaração foi feita na quinta-feira, 13, durante evento em Brasília sobre dados da Relação Anual de Informações Sociais, e repercutiu nesta sexta-feira, 14, diante do avanço das dívidas no país.
Lula defendeu o que chamou de endividamento saudável. Segundo o presidente, financiamentos podem melhorar a qualidade de vida quando permitem a aquisição de eletrodomésticos, utensílios e outros bens dentro da capacidade de pagamento. Ele também disse que o governo deve estimular o consumo responsável.
O contexto, porém, exige cautela. Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, divulgada pela Confederação Nacional do Comércio, mostrou que 82% das famílias brasileiras possuem dívidas pendentes. Entre os lares com renda de até três salários mínimos, o índice se aproxima de 85%.
O petista criticou especificamente dívidas ligadas às apostas de quota fixa, por considerar que o hábito pode levar ao superendividamento. Em julho, o Ministério da Fazenda lançou nova versão do Desenrola, programa de renegociação que passou a exigir a autoexclusão dos participantes de plataformas de apostas.
Os dados apresentados no evento indicaram 62,9 milhões de vínculos formais em junho. Desse total, 48,2 milhões eram empregos com carteira assinada e 14,3 milhões correspondiam a vínculos estatutários e terceirizados no setor público. O salário médio recuou de R$ 4,5 mil em janeiro para R$ 4,3 mil em junho.
A diferença entre crédito produtivo e dívida impagável é central. Uma família que financia um bem com planejamento pode formar patrimônio. Quando juros, impostos e custo de vida comprimem a renda, contudo, o mesmo financiamento se transforma em atraso, perda de poder de compra e insegurança.
Sob uma perspectiva conservadora, o governo deveria priorizar estabilidade monetária, emprego privado, redução da carga tributária e educação financeira. Incentivar consumo sem enfrentar as causas do endividamento pode ampliar uma fragilidade que já atinge a maioria dos brasileiros.
A declaração de Lula não significa defesa da inadimplência, mas revela uma aposta no crédito como motor de consumo. O problema é que famílias não pagam contas com discursos: dependem de renda real, preços controlados pela concorrência e responsabilidade fiscal capaz de impedir que inflação e juros destruam o orçamento doméstico.
O recorde de endividados transforma a fala presidencial em tema eleitoral. Cabe ao Planalto explicar como pretende permitir que o crédito financie patrimônio, e não apenas sustente um padrão de consumo cada vez mais difícil de pagar. A responsabilidade começa por controlar os gastos públicos, reduzir incertezas econômicas e criar condições para que salários cresçam acima dos preços, permitindo ao trabalhador poupar antes de recorrer ao crédito.





