José Mariano Paz Chávez, conhecido pelo apelido de ‘Piña’, foi morto no Brasil após uma fuga iniciada durante a escalada de violência na fronteira entre a Bolívia e o Brasil. Sua morte, ao lado da de outros três homens, encerra a perseguição desencadeada pelo assassinato de cinco pessoas em San Matías — entre elas o tenente boliviano Yerson Salazar —, mas volta a colocar sob os holofotes o histórico de um dos nomes mais citados em investigações de narcotráfico, sequestro e assassinatos de aluguel na Bolívia.
‘Piña’ foi identificado pelas autoridades brasileiras como um dos quatro homens que permaneceram foragidos por sete dias em uma área de mata em São Gabriel do Oeste, no estado de Mato Grosso do Sul. Segundo o relatório policial, o grupo entrou no Brasil a bordo de uma aeronave interceptada por caças A-29 Super Tucano da Força Aérea Brasileira (FAB).
Os quatro foram localizados à beira do rio Coxim e morreram durante um confronto com agentes do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul. As autoridades apontam que eles estavam diretamente vinculados à emboscada que vitimou o oficial boliviano no dia 31 de julho.
Do Sequestro em 2017 ao Assassinato em 2025
Os primeiros registros criminais conhecidos de José Mariano Paz Chávez remontam a 2017, quando foi preso e encaminhado ao presídio de Palmasola pelo sequestro e tortura do advogado Lorgio Saucedo. De acordo com a Promotoria boliviana, Saucedo teria sido mantido em cativeiro por duas semanas devido a uma suposta dívida de US$ 60 mil ligada à venda de veículos.
Anos mais tarde, em 2 de setembro de 2025, Lorgio Saucedo foi novamente sequestrado e, desta vez, executado a tiros. Seu corpo foi encontrado nas instalações de um aeródromo na comunidade de Coloradillo, no município de Warnes. Nas investigações, a Promotoria apontou ‘Piña’ como o mandante do crime.
Um dos principais investigados, Yerko Junior Iriarte Montaño — apontado como braço direito de ‘Piña’ —, teria confessado à polícia que cumpriu ordens diretas do chefe, embora sua defesa posterior tenha negado a confissão.
A Conexão com Sebastián Marset e o Narcotráfico Aéreo
O caso tomou proporções ainda maiores quando peritos analisaram o celular de Iriarte. Entre as mensagens, foi encontrado um contato identificado como ‘Rey del Sur’, apelido atribuído pelas autoridades ao narcotraficante uruguaio Sebastián Marset. As conversas indicavam pedidos de apoio logístico e financeiro quando a polícia boliviana cercava os suspeitos.
Além dos crimes de encomenda, ‘Piña’ era investigado pela polícia e por veículos de imprensa de Beni como líder de uma organização dedicada ao tráfico de cocaína por meio de aeronaves com base em Santa Ana de Yacuma. Registros em vídeo mostravam a movimentação constante de aviões e o carregamento de pacotes de drogas.

A Emboscada em San Matías e o Confronto Final no Brasil
A trajetória de ‘Piña’ culminou nos eventos recentes na fronteira:
- Ataque e Emboscada (31 de Julho): Após um ataque armado deixar quatro mortos em San Matías, uma patrulha de forças especiais bolivianas foi emboscada por um grupo armado. O subtenente Yerson Salazar morreu no confronto.
- Fuga Aérea: O grupo fugiu em uma aeronave clandestina em direção ao espaço aéreo brasileiro.
- Interceptação da FAB: Dois caças A-29 Super Tucano ordenaram o pouso da aeronave, que desobedeceu e realizou um pouso forçado na zona rural de São Gabriel do Oeste (MS). Os ocupantes se esconderam na mata.
- Cerco do BOPE: Após sete dias de buscas em terreno fechado às margens do rio Coxim, o grupo foi localizado e abatido durante troca de tiros com a Polícia Militar.
Para o governo boliviano, a onda de violência em San Matías reflete a disputa direta por rotas de escoamento de drogas entre grandes facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Embora a morte de ‘Piña’ encerre uma das linhas de investigação sobre a chacina na fronteira, o caso deixa em aberto a extensão da rede criminosa que permitiu a sua atuação em ambos os lados da fronteira.




