O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou na noite de sexta-feira, 31, que metade da atual composição do Senado Federal está “apodrecida”. A declaração foi feita durante a convenção do PT no Ceará, evento que confirmou a candidatura à reeleição do governador Elmano de Freitas e no qual o petista pediu votos para ampliar a bancada governista na Casa.
Ao lado do senador Cid Gomes e de lideranças locais, Lula disse que precisa eleger parlamentares capazes de fazer o Senado “fazer as coisas corretas”. A fala ocorreu em meio ao desgaste do governo com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, e expôs novamente a dificuldade do chefe do Executivo em conviver com um Poder independente quando suas indicações e projetos encontram resistência.
O atrito se intensificou depois que o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. A derrota representou um raro freio institucional ao Planalto e mostrou que os senadores não estão obrigados a apenas referendar escolhas presidenciais. Em vez de reconhecer a autonomia constitucional do Legislativo, Lula optou por atacar genericamente metade de seus integrantes.
O presidente também citou propostas paradas na Casa, como a PEC da Segurança Pública e o fim da escala 6×1. A cobrança, entretanto, não autoriza a desqualificação de parlamentares eleitos. Em uma democracia, o Senado existe justamente para revisar decisões, controlar o Executivo e representar os Estados, mesmo quando isso contraria os interesses do governo de turno.
A declaração ganha peso adicional porque a eleição de 2026 renovará dois terços das cadeiras do Senado. A direita conservadora considera essa disputa estratégica para fortalecer o equilíbrio entre os Poderes, fiscalizar o governo, analisar indicações ao STF e impedir projetos que aumentem impostos, gastos ou restrições às liberdades individuais.
Ao chamar senadores de “apodrecidos”, Lula transforma divergência política em ofensa institucional e revela incômodo com limites ao seu poder. O eleitor terá a palavra nas urnas, mas não precisa aceitar que a independência parlamentar seja tratada como defeito. Para o campo conservador, a resposta adequada é eleger uma bancada firme, comprometida com responsabilidade fiscal, segurança, liberdade e fiscalização — valores capazes de impedir que o Senado se torne uma extensão automática do Palácio do Planalto.
A generalização também atinge senadores que apoiaram projetos do governo em diferentes momentos, mas preservaram independência em votações específicas. Democracia não funciona por obediência permanente. Um parlamentar pode concordar com uma proposta e rejeitar outra sem se tornar moralmente inferior. O ataque presidencial dificulta o diálogo que o próprio Planalto diz pretender retomar depois do recesso e aumenta a polarização às vésperas da campanha eleitoral.
Fonte: Gazeta do Povo — https://www.gazetadopovo.com.br/republica/lula-diz-que-metade-do-senado-esta-apodrecida/





