Obra petista valorizou terreno de Wagner em 115 vezes

Área ligada ao senador foi negociada por R$ 15,8 milhões depois de rodovia contratada em sua gestão; transferência permanece bloqueada pelo STF.

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Jaques Wagner

Uma área de 51 mil metros quadrados ligada ao senador Jaques Wagner (PT-BA) registrou valorização de 115 vezes depois da construção da Via Metropolitana, rodovia contratada em 2014, quando o próprio petista governava a Bahia. Segundo reportagem publicada por O Antagonista, com base em apuração da Folha de S.Paulo, o terreno comprado em março de 2000 por R$ 28 mil — cerca de R$ 130 mil em valores corrigidos — foi negociado por R$ 15,8 milhões.

A diferença corresponde a uma valorização aproximada de 11.400%. A transferência, porém, não foi concluída porque o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou o bloqueio de bens do parlamentar. Wagner é investigado por suposta atuação em temas de interesse do Banco Master. As suspeitas de vantagens indevidas mencionadas no inquérito ainda dependem de comprovação judicial, e o senador não foi condenado nesse caso.

A Via Metropolitana, com 11,2 quilômetros, liga a região de Salvador a Camaçari. O projeto começou a ser estruturado no governo Wagner e foi viabilizado por um aditivo contratual assinado em setembro de 2014. O acordo ampliou de 25 para 30 anos a concessão do sistema BA-093, então administrado pela Bahia Norte. As obras começaram em janeiro de 2015, já sob Rui Costa, também do PT, e foram entregues em 2018, após investimento de R$ 220 milhões.

O imóvel integra uma área maior da Traneves Patrimonial e foi vendido a empresas ligadas ao Grupo City, controlador da SAF do Bahia, e ao setor imobiliário. O projeto prevê um residencial de alto padrão integrado a um centro de treinamento. Em fevereiro deste ano, Wagner participou da cerimônia de início das obras e relacionou publicamente o novo empreendimento à rodovia iniciada durante sua passagem pelo governo estadual.

O caso reforça a necessidade de transparência rigorosa quando decisões públicas de grande valor econômico alcançam propriedades de agentes políticos. A valorização imobiliária decorrente de infraestrutura não constitui, isoladamente, ilegalidade. O ponto de interesse público é a coincidência entre o planejamento contratado por uma gestão comandada pelo proprietário e o ganho patrimonial posterior, agora inserido em investigação mais ampla.

Procurada pela Folha, a defesa afirmou que a venda começou a ser negociada em 2024 e foi formalizada no ano seguinte. Disse ainda que Wagner já prestou os esclarecimentos necessários e que o mérito está sendo discutido nos autos. Cabe às autoridades apurar os fatos com devido processo, publicidade e igualdade perante a lei.

A investigação deve esclarecer a cronologia completa, os vínculos empresariais, os critérios de avaliação do imóvel e se houve informação privilegiada, preservando simultaneamente a presunção de inocência e o interesse público.

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