O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou uma cerimônia oficial no Palácio do Planalto para chamar de “mequetrefes” os ministros da Saúde que atuaram durante o governo de Jair Bolsonaro. A declaração foi feita nesta segunda-feira, 20, durante a sanção da lei que cria a Estratégia Nacional do Complexo Econômico-Industrial da Saúde.
Ao elogiar o atual ministro Alexandre Padilha, Lula comparou sua atuação à dos titulares da pasta na administração anterior. O presidente afirmou que, diante da comparação, seu governo teria realizado uma “revolução” no setor. A fala ocorreu na presença de ministros e integrantes do primeiro escalão.
A nova legislação estabelece diretrizes para ampliar a fabricação nacional de medicamentos, vacinas, equipamentos e insumos utilizados pelo Sistema Único de Saúde. O projeto foi apresentado pelo deputado Doutor Luizinho, do Progressistas do Rio de Janeiro, e aprovado pelo Congresso em junho. O governo afirma que a política reduzirá a dependência de fornecedores estrangeiros.
O objetivo da lei merece debate técnico, especialmente sobre custos, metas e eficiência. Entretanto, o uso de uma solenidade institucional para desqualificar adversários revela novamente o estilo de confronto adotado por Lula. Em vez de apresentar resultados mensuráveis e reconhecer a continuidade das políticas públicas, o presidente transformou o evento em palanque contra a gestão Bolsonaro.
A expressão empregada também contrasta com os pedidos frequentes do PT por respeito, civilidade e combate ao chamado discurso de ódio. Quando ataques partem do presidente, a linguagem ofensiva costuma ser tratada como espontaneidade. Quando vêm da oposição, dirigentes governistas frequentemente pedem punição, retirada de conteúdo ou investigação.
O problema não está apenas na palavra escolhida. A Presidência da República representa todos os brasileiros, inclusive aqueles que não votaram no atual governo. Cerimônias oficiais são financiadas pelo contribuinte e deveriam servir à prestação de contas, não à humilhação de adversários.
A direita pode responder a esse tipo de provocação destacando fatos, números e propostas. Durante a pandemia, decisões de saúde foram tomadas sob pressão inédita, com erros e acertos que precisam ser analisados com seriedade. Reduzir todo esse período a um insulto não melhora hospitais, não reduz filas e não produz medicamentos.
O episódio mostra como Lula mantém a polarização enquanto acusa seus adversários de radicalismo. Para quem defende responsabilidade institucional, o chefe do Executivo deveria elevar o nível do debate, respeitar o cargo e explicar de forma objetiva como a nova estratégia beneficiará os cidadãos.
Também será necessário acompanhar a execução da lei sancionada. Metas de produção, contratos, subsídios e resultados para o SUS devem ser divulgados com transparência. Uma política industrial de saúde só poderá ser chamada de avanço se entregar produtos mais acessíveis, reduzir dependências reais e não se transformar em novo instrumento de favorecimento político.
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