Ministros do Supremo Tribunal Federal que, nos últimos anos, protagonizaram decisões e embates diretos com Jair Bolsonaro (PL) e seu núcleo político passaram a buscar canais de diálogo com a campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência. O movimento, revelado por interlocutores nos bastidores do STF e do Congresso, ocorre a poucos dias do segundo turno e às vésperas de uma nova configuração do Senado que já pressiona a Corte.
Segundo relatos obtidos pela reportagem, o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, esteve com o presidente do STF, Edson Fachin, na última terça-feira (6). Na reunião, Marinho levou um recado direto: um eventual governo de Flávio Bolsonaro não promoveria “vingança” contra ministros do Supremo . Horas depois, o mesmo Marinho foi ao encontro de Gilmar Mendes, decano da Corte, para reiterar o compromisso de não ampliar o número de cadeiras do tribunal e de não agir por “revanchismo” .
As conversas não ocorrem por acaso. Flávio Bolsonaro, que terminou o primeiro turno à frente de Lula (PT) com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% , reuniu-se reservadamente com Gilmar Mendes há cerca de um mês. Na ocasião, criticou duramente Alexandre de Moraes — especialmente pela proibição de visitar o pai —, mas sinalizou que não pretende uma ofensiva institucional contra a Corte caso seja eleito .
A aproximação, porém, tem limites claros e alvos definidos. A campanha de Flávio não esconde que Moraes e Flávio Dino são os ministros que permanecem na mira. O próprio Marinho, em conversa com Gilmar Mendes, avaliou como “improvável” que Moraes fosse preservado de um eventual processo de impeachment em um governo Flávio .
O cenário é alimentado pela nova composição do Senado. A eleição de 2026 colocou 19 cadeiras nas mãos do PL, a maior bancada da Casa . Cinco senadores do partido já assinaram um pedido de impeachment contra Flávio Dino . A pressão sobre Dino tem origem em decisões sensíveis: ele é relator de ações que investigam o uso de emendas parlamentares que atingiram o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e autorizou a Operação Make Up, que mirou o deputado Mário Frias (PL-SP) e o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro .
A defesa de Flávio chegou a pedir o afastamento de Dino dos processos, alegando proximidade com Lula. O pedido foi rejeitado por Fachin no final de setembro . A decisão, porém, não encerrou a ofensiva política no Legislativo.
A movimentação ocorre em um momento de fragilidade institucional. Em setembro, treze ministros aposentados do STF — incluindo ex-presidentes da Corte como Carlos Velloso, Nelson Jobim, Joaquim Barbosa e Celso de Mello — assinaram uma carta aberta pedindo apuração “urgente e rigorosa” diante do que classificaram como “a maior crise da história” do tribunal . O documento, sem citar nomes, falava em “gravíssimos fatos” que comprometem “a confiança do povo e até a estabilidade das instituições democráticas” .
Para a cúpula do STF, o diagnóstico é claro. A nova configuração do Senado tornou o impeachment de ministros uma pauta incontornável . A eleição para a presidência da Casa, em fevereiro, definirá o grau de pressão. Rogério Marinho desponta como um dos nomes cotados para o cargo, o que poderia transformar as conversas de bastidor em poder real de pauta .
A negociação, portanto, não elimina o conflito. Apenas o desloca. Se por um lado a campanha de Flávio sinaliza que não pretende transformar o Supremo em alvo institucional, por outro mantém o foco em ministros específicos — e usa a força parlamentar recém-eleita como moeda de troca. O acordo, se é que existe um, é menos uma trégua e mais uma reconfiguração das regras do confronto.





