Lula recebe advogado de Lulinha no Alvorada em meio à PF

Compartilhar notícia

Encontro de três horas e meia reuniu presidente, defensor do filho investigado e o ministro Haddad para tratar de “estratégias políticas”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu na noite desta quarta-feira (19), no Palácio da Alvorada, o advogado Marco Aurélio de Carvalho, responsável pela defesa de seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. O detalhe que chama atenção não é apenas o encontro em si, mas o timing: a reunião ocorre em meio a investigações da Polícia Federal que apuram o filho do presidente por suspeitas de tráfico de influência e corrupção — e o local escolhido para tratar do assunto foi justamente a residência oficial da Presidência da República.

Segundo apurou o g1, o advogado chegou ao Alvorada por volta das 19h15, e o encontro se estendeu por cerca de três horas e meia. Também participou da reunião o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, hoje candidato do PT ao governo de São Paulo — uma combinação de personagens que mistura, no mesmo ambiente e na mesma noite, defesa jurídica do filho do presidente, estratégia eleitoral e a máquina do governo federal.

Segundo interlocutores de Lula, a pauta oficial do encontro envolveu “estratégias políticas e assuntos pessoais”, com foco nas eleições em São Paulo. O detalhe é que Marco Aurélio de Carvalho não é apenas advogado de Lulinha: ele também coordena a campanha do PT no estado paulista, o que torna praticamente impossível separar, na prática, a defesa criminal do filho do presidente da engrenagem eleitoral petista para outubro.

Investigação avança sobre negócios de Lulinha

A reunião ocorre num momento delicado para o Planalto. A Polícia Federal investiga se Fábio Luís atuou em negociações envolvendo órgãos públicos, com suspeitas que vão de tráfico de influência a corrupção, em pelo menos três inquéritos que já tramitam no Supremo Tribunal Federal. Uma das linhas de apuração busca esclarecer se Lulinha teria atuado em favor do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS” — nome central no escândalo de desvios de recursos de aposentadorias e pensões que expôs um dos maiores esquemas de corrupção contra idosos já registrados no país — em negociações junto ao Ministério da Saúde relacionadas à autorização para comercialização de cannabis medicinal.

As investigações também mapeiam a relação de Lulinha com a lobista Roberta Luchsinger, que, segundo mensagens interceptadas pela PF, teria alegado atuar em nome do filho do presidente em negociações ligadas ao governo federal. A defesa nega irregularidades e afirma que as mensagens precisam ser “contextualizadas” — argumento recorrente sempre que provas incômodas vêm a público.

Não é a primeira vez que Marco Aurélio de Carvalho aparece circulando pelos corredores do poder em nome da defesa de Lulinha. Em 3 de agosto, ele já havia se reunido com o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, no Palácio da Justiça, em Brasília — encontro que, segundo a própria defesa, serviu para cobrar “providências” sobre supostos vazamentos de dados dos inquéritos que miram o filho do presidente. Ou seja: o mesmo advogado que deveria estar concentrado em contestar provas tem dedicado parte de seu tempo a pressionar ministérios do próprio governo Lula sobre o andamento das investigações.

Visitas frequentes ao Planalto

O encontro desta quarta-feira reacende um histórico que já era, por si só, revelador. Entre junho de 2023 e janeiro de 2025, Lulinha teve 18 registros de entrada no Palácio do Planalto, segundo dados obtidos pelo jornal O Globo via Lei de Acesso à Informação — o Planalto, no entanto, não informou quais setores do prédio foram acessados em cada uma das visitas. Das 18 entradas, 12 ocorreram somente em 2024, incluindo uma visita em 7 de março, dois dias antes de a lobista Roberta Luchsinger comentar com o filho de Lula, segundo as mensagens interceptadas, sobre o andamento de negócios.

Coordenador do grupo de advogados Prerrogativas — organização historicamente alinhada à defesa jurídica do próprio Lula durante os processos da Lava Jato —, Marco Aurélio chegou a ser cogitado para assumir a coordenação jurídica de toda a campanha presidencial do petista neste ano. A possibilidade não avançou por divergências internas com a cúpula da campanha, mas o episódio de agora mostra que sua influência dentro do círculo mais próximo do presidente segue intacta.

Auxiliares de Lula minimizam o desgaste político do caso, alegando internamente que “ninguém deixou de votar em Lula por causa do filho” e que apenas um fato de maior gravidade, como uma eventual prisão de Lulinha, teria impacto real no cenário eleitoral. É uma aposta arriscada: a oposição já trata o caso como símbolo de um padrão recorrente no petismo — proximidade entre negócios privados, lobby e as portas do poder Executivo —, e a imagem de reuniões prolongadas no Alvorada, misturando defesa criminal e estratégia de campanha, dificilmente ajuda a esvaziar essa narrativa.

Rolar para cima