O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) ajuizou uma ação civil pública contra a influenciadora Virginia Fonseca e a plataforma de apostas Blaze, pedindo uma indenização de R$ 120 milhões por danos morais coletivos . A acusação sustenta que a influenciadora teria participado de um modelo “estruturado de captação de apostadores” comandado pela empresa, lucrando com as perdas financeiras de seus seguidores .
O esquema apontado pelo MP
Segundo a denúncia, durante a Copa do Mundo de 2026, Virginia teria divulgado em seus stories do Instagram uma aposta na vitória de Cabo Verde contra a Argentina — um resultado considerado de baixa probabilidade e alto retorno potencial . Na publicação, a influenciadora teria usado linguagem emocional, dizendo estar “esperançosa” com a vitória da seleção africana, sem sinalizar claramente que se tratava de conteúdo publicitário .
O Ministério Público afirma que o contrato entre Virginia e a Blaze previa um modelo de revenue share (compartilhamento de receita), pelo qual a influenciadora receberia cerca de 30% sobre os valores perdidos pelos apostadores que chegassem à plataforma por meio de seu link de divulgação .
“A divulgação de apostas por influenciadores, associada à falsa percepção de ganhos fáceis e à minimização dos riscos, pode estimular o comportamento compulsivo e contribuir para perdas milionárias suportadas por consumidores”
“Engenharia predatória”
Na ação, o promotor Paulo Binicheski classifica a conduta como parte de uma “engenharia predatória de exploração de vulnerabilidades cognitivas em escala massiva” . O MP argumenta que Virginia utiliza a relação parassocial com seus seguidores — cultivada por meio de uma imagem de acessibilidade e intimidade — para reduzir barreiras de ceticismo e ativar um mecanismo de “imitação comportamental” .
“O receptor não processa a mensagem como publicidade explícita; ele a internaliza como um gesto pessoal de alguém de confiança. Do ponto de vista científico, este é o efeito máximo da relação parassocial aplicada à indução comportamental”
O órgão também destaca que a investigação recebeu 42 mil reclamações contra a plataforma, com relatos de retenção de valores, bloqueio de contas e dificuldades para sacar recursos .
O pedido de indenização
O valor de R120milho~esfoicalculadocombasenumaestimativadequeaBlazemovimentariacercadeR 600 milhões por ano em receita bruta de jogos. O MP aplicou, por analogia, um percentual de 20% sobre esse montante .
Além da indenização, a ação pede:
- A interrupção imediata das campanhas publicitárias consideradas irregulares
- A suspensão de cláusulas contratuais que vinculem a remuneração de influenciadores às perdas dos apostadores
- A retirada de conteúdos publicitários que induzam consumidores ao erro
Para descumprimento, o MP pede multas diárias de R1milha~oparaaempresaeR 500 mil para a influenciadora .
O que dizem os acusados
A defesa de Virginia Fonseca informou que tomou conhecimento da ação pela imprensa e afirmou que as alegações serão respondidas tecnicamente nos autos . O advogado Sanderson Mafra refutou as acusações:
“A defesa refuta as alegações manifestadas na ação, especialmente qualquer afirmação de conluio, atuação predatória ou intenção de causar prejuízo aos consumidores. A responsabilização civil deve estar amparada em provas concretas, e não em presunções ou ilações decorrentes da condição de pessoa pública da influenciadora”
A defesa também destacou que a própria petição inicial reconhece a existência de diligências pendentes, como a requisição de contratos, essenciais para esclarecer a natureza do vínculo e a forma de remuneração .
Já a Blaze declarou que ainda não foi formalmente intimada e que suas operações seguem as melhores práticas de mercado, com foco na segurança dos usuários e nas diretrizes de jogo responsável .
Histórico de investigações
Esta não é a primeira vez que Virginia Fonseca é alvo de investigações relacionadas a apostas. Em 2025, a CPI das Bets já havia pedido o indiciamento da influenciadora por propaganda enganosa, estelionato e lavagem de dinheiro . A relatora da comissão, senadora Soraya Thronicke, classificou a prática de comissão sobre perdas como “cachê da desgraça alheia” .
O MP também requisitou os contratos de outros influenciadores, incluindo Neymar Jr., Lucas Lira e Bruna Sunaika, como parte das investigações sobre as estratégias de marketing da Blaze .





