Na madrugada desta segunda-feira, 13 de julho de 2026, caminhões pararam em pontos estratégicos do país, especialmente no Porto de Santos, o maior da América Latina. O movimento, convocado por lideranças da categoria como Wallace Landim, o “Chorão”, presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), tem um alvo claro e um prazo implacável: pressionar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a pautar a votação da Medida Provisória 1.343/2026, a chamada “MP do Frete”, que caduca na próxima quinta-feira, 16 de julho, se não for aprovada .
Diante da iminência de um caos logístico que remete às greves de 2018, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou em campo com um plano de emergência. A Advocacia-Geral da União (AGU) foi acionada ainda na noite de domingo para monitorar os desdobramentos do movimento, enquanto os ministros José Guimarães (Relações Institucionais) e Miriam Belchior (Casa Civil) foram mobilizados para tentar construir um acordo que desmobilize a paralisação .
O que está em jogo na MP do Frete?
A MP 1.343 não é um ponto novo na pauta dos caminhoneiros. Editada em março pelo governo Lula, ela representa o resultado de uma negociação conduzida pelo ministro Guilherme Boulos que, na época, conseguiu esvaziar uma tentativa da extrema direita de transformar a insatisfação da categoria em uma greve nacional contra o governo . O texto reforça a Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas, tornando obrigatório o cadastramento das operações de transporte por meio do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT) e criando mecanismos para punir empresas que contratarem fretes abaixo do valor mínimo estabelecido pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) .
O relatório aprovado na Câmara, de autoria do deputado Zé Trovão (PL-SC), prevê um piso salarial de R$ 5 mil para motoristas de longa distância contratados pelo regime CLT e uma anistia para multas aplicadas a caminhoneiros que participaram de bloqueios após as eleições de 2022 . Para a categoria, a perda da validade da MP representa um retrocesso e o retorno à vulnerabilidade diante de contratos que não cobrem nem os custos básicos das viagens .
O nó no Senado
Apesar de ter sido aprovada na Câmara em 17 de junho, a MP está “aguardando leitura” no Senado desde o dia 30 de junho, sem previsão de ser incluída na pauta de votações . A demora gerou revolta entre os caminhoneiros, que responsabilizam diretamente o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, pelo impasse .
“Há duas semanas, a gente vem lutando para que o Senado coloque na pauta para ser votado e até agora nada”, afirmou Chorão em vídeo. “A orientação é que você, caminhoneiro, não saia para viajar a partir da 0h, para que a gente possa acompanhar até terça-feira e ver se, de fato, a MP vai entrar na pauta. Não vamos aceitar que ela caduque. Davi Alcolumbre, você foi avisado. Agora você segura, meu irmão” .
Nos bastidores, a resistência à aprovação da MP é alimentada por setores da indústria, do agronegócio e do comércio, que alegam que o endurecimento da fiscalização pode elevar os custos logísticos e pressionar os preços ao consumidor final . A decisão de Alcolumbre, que mantém a proposta travada, coloca o governo em uma posição delicada, pois coloca em risco todo o acordo político construído com a categoria em março .
Onde a paralisação já chegou
A mobilização já produz efeitos concretos. No Porto de Santos, caminhoneiros se concentraram no Viaduto da Alemoa, principal acesso à região portuária, desde a madrugada. A Polícia Militar e a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) acompanham uma manifestação pacífica, que causa lentidão no trânsito, mas que teve as vias liberadas após um bloqueio inicial . A Autoridade Portuária de Santos (APS) informou que o bloqueio foi parcial e as operações ocorrem normalmente .
Apesar de o movimento ter sido convocado por importantes lideranças como a Abrava, ele não reflete um consenso absoluto no setor. A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) afirmou que sua postura é de priorizar o diálogo e que decisões de paralisação são prerrogativas dos sindicatos locais .
A última cartada do governo
A reunião agendada pelo governo para esta segunda-feira é apontada como a última esperança para evitar que a crise se agrave . A expectativa é que um acordo costurado entre o Executivo, representantes da categoria e membros da oposição possa convencer Alcolumbre a pautar a votação para terça-feira, 14 de julho . O próprio Alcolumbre, embora não deva participar do encontro, mantém contato com os envolvidos .
Se o acordo não vier, e a MP perder a validade na quinta-feira, o governo Lula verá desmoronar uma de suas principais conquistas na articulação com os caminhoneiros e se abrirá uma nova janela de oportunidade para grupos de oposição tentarem explorar o descontentamento da categoria, como já tentaram em março . O relógio do Senado e os caminhões parados nos portos marcam, agora, o mesmo ritmo.





