A recente revelação de que um perito da Polícia Federal produziu dossiês com informações sobre os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli a partir de dados extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, reacendeu um debate crucial no cenário jurídico brasileiro: até que ponto um servidor público pode revelar informações de interesse público sem se tornar alvo do próprio sistema que deveria fiscalizar?
O caso do perito João Cláudio Nabas expõe as contradições de um sistema que, ao mesmo tempo em que depende de delatores internos para expor irregularidades, cria mecanismos cada vez mais sofisticados para punir aqueles que ousam levar adiante informações sensíveis sobre a elite estatal. Os arquivos batizados de “Moraes.pdf” e “Toffoli e esposa.pdf”, criados em dezembro de 2025, reuniam mensagens, contatos telefônicos e referências aos ministros encontradas no celular de Vorcaro, incluindo trechos do contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes .
A cronologia reconstituída pela PF é precisa: Nabas passou a integrar a equipe da operação em novembro de 2025, acessou os dados do celular de Vorcaro em 1º de dezembro e elaborou os dois documentos três dias depois . Segundo depoimentos de colegas, o perito teria sugerido que o material fosse encaminhado à imprensa — proposta rejeitada pela equipe. Pouco tempo depois, as informações sobre o contrato milionário se tornaram públicas, o que levou a PF a concentrar suspeitas em Nabas .
O ministro André Mendonça, que assumiu a relatoria do caso Master após a saída de Dias Toffoli, determinou em maio mandados de busca e apreensão contra o servidor, além de seu afastamento temporário da função pública . A investigação, segundo o STF, não tem como alvo jornalistas ou veículos de imprensa, mas somente a conduta do agente público que teria violado o dever funcional de preservar informações sigilosas .
O padrão que se repete
A situação de Nabas não é isolada. Ela se soma a outros casos recentes de reação institucional contra quem levou informações sensíveis sobre a elite estatal ao conhecimento público. Em janeiro de 2026, Alexandre de Moraes abriu de ofício um inquérito sigiloso para apurar se servidores da Receita Federal e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) teriam acessado ou vazado dados de ministros e familiares .
O caso Tagliaferro segue o mesmo padrão. Ex-assessor do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele divulgou mensagens internas no gabinete de Moraes que indicavam práticas como monitoramento de cidadãos com base em publicações em redes sociais. Em vez de ser ouvido para esclarecimento das denúncias, Tagliaferro virou réu no STF acusado de crimes como violação de sigilo funcional, obstrução de investigação e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito .
A tensão no Supremo
O caso Master também expôs fissuras internas no STF. Em junho de 2026, durante julgamento na Segunda Turma, os ministros Gilmar Mendes e André Mendonça protagonizaram um embate público sobre os limites das investigações. Gilmar criticou duramente a utilização de delações premiadas em ambientes de pressão, afirmando que “o direcionamento de uma delação premiada para atingir alvos políticos predeterminados pelos investigadores […] macula a voluntariedade do pretenso acordo” .
O decano do STF foi além: “Juiz algum pode comportar-se como delegado de polícia. Nós sabemos muito bem onde esse caminho termina” . Sua fala ressoou como um alerta sobre os riscos de que a sucessão de medidas adotadas durante investigações criminais acabe comprometendo a liberdade de decisão de potenciais colaboradores .
André Mendonça respondeu com veemência, classificando o caso Master como tendo “contornos de máfia” e destacando que a investigação revelou “fuzis, metralhadoras, armas raspadas, infiltração no sistema policial” . O ministro rebateu críticas sobre o uso de prisões para obtenção de delações: “Não se prende para ter delação. Seria um absurdo fazer isso. Se prende porque se está praticando crime” .
O que está em jogo
O cerco ao perito Nabas e aos demais servidores que ousaram revelar informações sobre ministros do STF lança uma sombra sobre o futuro das delações internas no Brasil. Servidores que revelam informações de interesse público para expor possíveis irregularidades — os chamados whistleblowers — são essenciais para a transparência e o combate à corrupção . No entanto, os casos recentes sugerem que, no Brasil, o ato de “assoprar o apito” pode custar caro.
A apuração contra Nabas tramita separadamente da Operação Compliance Zero, que investiga crimes financeiros envolvendo Daniel Vorcaro . Enquanto a PF concentra esforços em desvendar a fraude de R$ 12,2 bilhões que levou à liquidação do Banco Master, o caso do perito se torna um precedente perigoso: revelar informações sensíveis sobre autoridades pode significar trocar o posto de investigador pelo de investigado .
O desfecho desse caso pode definir, por muitos anos, os limites da atuação de servidores públicos que se deparam com informações comprometedoras sobre o alto escalão do Estado brasileiro — e, consequentemente, a capacidade da sociedade de conhecer as entranhas do poder que a governa.





