Na manhã desta quinta-feira (24), promotores, policiais e auditores fiscais cumprem mandados em 32 endereços, distribuídos por onze cidades em seis estados e no Distrito Federal. O objetivo é desmontar o esquema de lavagem de dinheiro da máfia dos combustíveis, suspeita de vínculos com o PCC.
A nova etapa, batizada de Operação Crédito Oculto, tem 40 alvos, entre eles o ex-sócio e ex-diretor do Banco Genial Humberto Tupinambá, o empresário Antônio Carlos Freixo Junior (o “Mineiro”, delator do caso do Banco Master) e o Grupo Entre, que teria sido usado por Daniel Vorcaro para enviar US$ 12,33 milhões ao financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
A fraude para comprar a Terrana
Segundo o Gaeco-SP, autor da ação e que contou com autorização da 2ª Vara Criminal de Catanduva, as provas vêm da primeira fase da Operação Carbono Oculto (contratos, documentos, mensagens e áudios apreendidos). O esquema teria servido para esconder a fortuna de Roberto Augusto Leme da Silva (o “Beto Louco”) e Mohamad Hussein Mourad (o “Primo”), apontados como líderes da organização, na compra da distribuidora de combustíveis Terrana — nome fantasia da Tobrás, empresa carioca que chegou a estar entre as dez maiores do setor, com faturamento mensal de R$ 445 milhões e capital social de R$ 245 milhões na época da aquisição, em 2024. O valor da negociação pode ter alcançado R$ 153 milhões. Os dois empresários estão foragidos desde agosto de 2025.
Como funcionava o esquema, segundo os investigadores
A “arquitetura” da lavagem teria sido montada por Tupinambá e pelo advogado Rogério Garcia Peres (sócio-fundador da administradora Altinvest), com a participação do executivo Paulo Narcélio Simões do Amaral, que emprestaria seu nome às holdings Branson e Berna — criadas com capital social de apenas R$ 1 mil, um mês antes da operação, no mesmo endereço do grupo de Primo em Pinheiros.
O dinheiro vinha do Grupo Aster (postos dos empresários): R$ 100 milhões foram enviados à usina Itajobi, com passagem pelas contas de duas empresas, mais R$ 20 milhões da Entre Investimentos.
A usina “emprestava” os recursos ao fundo Radford (administrado pela Altinvest e depois pelo Genial), que os repassava ao banco via CDB vinculado; o banco então emprestava o mesmo valor às holdings via CCB — ocultando a origem do dinheiro. O banco receberia R$ 150 milhões em depósitos semestrais de R$ 18,7 milhões.
As holdings compraram ainda 100% das cotas do Fundo Derby 44 (hoje Wels) e ofereceram como garantia imóveis do Fundo Los Angeles 01 (hoje Lucerna).
Em troca de emprestar a imagem, Narcélio receberia 0,75% do valor da operação e R$ 100 mil mensais pelos três meses à frente das holdings.
O que dizem as mensagens
Conversas apreendidas no celular de Narcélio indicariam que o plano era impedir que a Tramp Oil (dona da Terrana) e a ANP descobrissem quem eram os compradores reais — a ideia era manter funcionando centenas de postos abastecidos pela organização, incluindo pontos usados pelo PCC para lavar dinheiro do tráfico. Os diálogos mostram desconforto com reportagens sobre a ligação dos novos donos com o crime organizado, discussões sobre como burlar a fiscalização da Secretaria da Fazenda paulista e Humberto apagando mensagens — sem saber que tudo ficava registrado no celular do interlocutor. Os irmãos de Humberto, André e Bruno, também tiveram imóveis alvos de busca e, segundo o Gaeco, foram remunerados pela Aster.
Posicionamentos
O Banco Genial divulgou nota esclarecendo que Tupinambá não integra a diretoria nem é sócio desde maio de 2026, quando foi destituído. Afirmou ainda que entregou ao Gaeco-SP todas as informações sobre as operações com o Fundo Radford (incluindo Berna e Branson), comunicou o COAF, criou inspetoria interna, revisou a governança de crédito, renunciou à administração do fundo e segue colaborando com as autoridades. Segundo o banco, seu crédito aprovou o empréstimo pela boa reputação de Narcélio, sem perceber o risco das empresas de fachada.
As defesas dos investigados não foram localizadas pela reportagem (espaço permanece aberto). A Reag Investimentos, empresa usada anteriormente pela dupla, foi liquidada pelo Banco Central após a Carbono Oculto, e seu dono, João Carlos Mansur, fechou acordo de delação com a PGR.





