Três inquéritos no STF, R$ 249 mil em despesas pagas a ex-chefe de gabinete e uma rede de influência sob suspeita colocam a reeleição do presidente em xeque a 60 dias da eleição
Por Redação — Brasília
A menos de dois meses das urnas, a campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta o fantasma que o presidente mais temia: o nome do filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, no centro de uma tempestade de investigações da Polícia Federal. Três inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), uma teia de personagens que inclui uma lobista milionária e o ex-chefe de gabinete do presidente, e uma viagem de primeira classe a Portugal custeada por um dos maiores fraudadores do INSS transformaram o herdeiro do petista no alvo preferido da oposição — e na principal dor de cabeça do Palácio do Planalto.
Lulinha, 51 anos, vive hoje em Madri, na Espanha, longe dos holofotes, mas cada vez mais próximo do banco dos réus. A PF investiga se ele usou a condição de filho do presidente para abrir portas do governo federal a empresas privadas, em especial no mercado de cannabis medicinal e em contratos milionários com a Dataprev, estatal de tecnologia da Previdência. As suspeitas não são novas — o nome dele já aparecia em investigações desde a época do mensalão, em 2005 —, mas desta vez o timing é letal: a menos de 60 dias do primeiro turno, cada novo vazamento reverbera diretamente nas intenções de voto.
A teia: três personagens, três inquéritos
As investigações desenham um mapa de influência que passa por três polos. O primeiro é Lulinha, que, segundo a PF, trocou mensagens com a empresária Roberta Luchsinger sobre encontros com o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa, para viabilizar a venda de produtos à base de canabidiol. Em uma das conversas, reproduzidas pela revista Veja, Roberta avisa: “Pousei. Vou lá no Berge”. Lulinha responde: “Que ótimo. Vai com tudo. Manda bjo pro Berge e fala que não fui pq vc não chamou”.
O segundo polo é Roberta Luchsinger, herdeira de família ligada ao antigo Credit Suisse e amiga pessoal de Lulinha. A PF descobriu que ela esteve 42 vezes em órgãos do governo federal entre janeiro de 2023 e abril de 2024 — em 41 delas, fora das agendas oficiais. Ela também é suspeita de ter recebido R$ 1,5 milhão de empresas de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, e de ter orientado o lobista a descartar telefones após uma operação de busca e apreensão.
O terceiro polo é Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula e um dos homens de maior confiança do presidente. Ele deixou o cargo em julho, pouco antes de vir a público que Roberta havia pago R$ 249 mil em despesas pessoais dele — joias, faturas de cartão, boletos e parcelas de um financiamento. Marcola alega que se tratava de um empréstimo já quitado, mas a saída dele da campanha de reeleição foi imediata, a pedido do próprio Lula.
O “Careca do INSS” e a viagem de primeira classe
O fio condutor que une esses personagens é Antônio Carlos Camilo Antunes, preso e apontado como líder de um esquema bilionário de descontos irregulares em aposentadorias. Segundo relatório da CPMI do INSS, Antunes teria pago R$ 25 milhões a Lulinha e uma “mesada” de R$ 300 mil mensais. A PF encontrou mensagens em que um operador de Antunes encaminha a Roberta o comprovante de um depósito de R$ 300 mil, indicando que o dinheiro era para “o filho do rapaz”.
A defesa de Lulinha reconhece que Antunes pagou uma viagem do filho do presidente a Portugal em 2024, mas afirma que o objetivo era apenas apresentar oportunidades de negócio no setor de cannabis medicinal. “Fábio Luís não prestou serviços relacionados à regulação do mercado de canabidiol e não foi remunerado por isso”, diz o advogado Guilherme Suguimori.
Já a defesa de Roberta, por meio do advogado Roberto Podval, recusou-se a comentar “vazamentos pontuais e criminosos”, argumentando que a empresária seria vítima de perseguição.
Lula entre a espada e a parede
O presidente tenta conter o incêndio com uma estratégia de duas pontas: negação veemente e promessa de não interferência. Em entrevista à TV Globo, Lula classificou as acusações como “ilações” e disse conhecer bem esse tipo de investigação — uma referência direta à Lava Jato, que o levou à prisão. “Ali não tem nenhuma acusação. São ilações, ilações, ilações tiradas de telefonemas”, afirmou.
Ao mesmo tempo, o petista prometeu que não blindará o filho. “Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro. Eu não vou afastar a delegado da Polícia Federal. Eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja beneficiado.”
Lula chegou a dizer estar “muito deprimido e muito chateado” com as acusações, mas reafirmou ter “certeza” da inocência de Lulinha e de Marcola. “O meu filho sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometeu, vai pagar. O Marcola sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometeu, vai pagar.”
O impacto eleitoral
Por enquanto, as pesquisas ainda não mostram um estrondo imediato. Segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, Lula oscilou de 40% para 39% no primeiro turno após o início das revelações, enquanto Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu principal adversário, subiu de 32% para 33% — variações dentro da margem de erro. No segundo turno, Lula caiu de 48% para 47%, mantendo uma vantagem de quatro pontos sobre Bolsonaro, que ficou com 43%.
Mas a oposição já sentiu o cheiro de sangue. Flávio Bolsonaro tem usado cada aparição pública para cutucar a ferida: “Cadê o Lulinha? Tá onde? Tá na Espanha? Tá morando naquele lugar luxuoso mesmo? Quem tá pagando as contas dele? Cadê o follow the money? Cadê o dinheiro?”, disparou o senador em evento na segunda-feira passada.
A Procuradoria-Geral da República já pediu que os três inquéritos sejam remetidos à primeira instância, argumentando que Lulinha não tem foro privilegiado no STF. A Corte ainda não decidiu. O advogado do filho do presidente, Marcos Aurélio Carvalho, ironizou: “Se o Fábio não fosse filho do presidente, nem sequer haveria esse pedido para ser remetido para a primeira instância. Na verdade, ele estaria arquivado.”
Enquanto isso, Lulinha permanece em Madri. Seu advogado garante que ele voltará ao Brasil se for necessário, “manterá a mesma postura colaborativa” e “cumprirá determinações legais”. Mas a verdade é que, a 60 dias da eleição, cada dia que o filho do presidente passa fora do país é um dia a mais de munição para quem quer derrubar o pai nas urnas.





