Mendonça autoriza PF a investigar Lulinha por corrupção e tráfico de influência

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O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal a abrir inquérito para investigar Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pelos crimes de corrupção e tráfico de influência. A informação foi divulgada pela Folha de S.Paulo e confirmada por diversos veículos.

A investigação mira a atuação do empresário para favorecer a comercialização de cannabis medicinal em programas do Ministério da Saúde — e, para a PF, as suspeitas já apontam para contatos diretos com servidores do gabinete presidencial.

Em outras palavras: o filho do presidente é investigado por supostamente usar o acesso ao próprio pai e à estrutura do governo para alavancar negócios privados.

Viagens, Pagamentos e o “Careca do INSS”

O caso emerge como um desdobramento da Operação Sem Desconto, que apura um esquema bilionário de fraudes em descontos indevidos de aposentadorias e pensões do INSS, com prejuízo estimado em R$ 6,3 bilhões.

Segundo a PF, Lulinha atuou no setor de cannabis medicinal em parceria com a empresária Roberta Luchsinger — amiga e elo com o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como operador central das fraudes.

A World Cannabis, empresa ligada a Antunes, teria sido beneficiada pela suposta influência do filho do presidente. A PF identificou que a RL Consultoria, de Roberta Luchsinger, recebeu R$ 1,5 milhão do lobista em pagamentos parcelados.

A defesa da empresária afirma que os valores se referiam a serviços de consultoria para regulação do mercado de canabidiol, mas a PF quer agora esclarecer se houve repasses a agentes públicos e se Lulinha atuou como facilitador junto ao Ministério da Saúde e ao Palácio do Planalto.

A Viagem a Portugal e os 25 Milhões

Em março, a defesa de Lulinha admitiu que o “Careca do INSS” pagou as despesas da viagem do filho do presidente a Portugal em 2024, para “conhecer a produção de medicamentos” — mas negou que houvesse sociedade ou contrapartida.

Mais grave: uma testemunha afirmou à PF que Antunes teria feito um pagamento de R$ 25 milhões a Lulinha, reforçando a tese de que ele seria, na verdade, sócio oculto do lobista no empreendimento.

A CPI do INSS, em relatório rejeitado pela base governista por 19 a 12, já havia pedido o indiciamento de Lulinha por tráfico de influência, lavagem de dinheiro, organização criminosa e corrupção passiva. A rejeição foi atribuída a uma manobra política — exatamente o oposto do que a defesa alega agora.

“Estranheza” e “Tranquilidade”? O Discurso da Defesa

O advogado de Lulinha, Marco Aurélio de Carvalho, afirmou ter recebido a abertura do inquérito com “estranheza, mas com tranquilidade”, e argumentou que a PF não encontrou nada contra seu cliente na investigação do INSS e agora “está tentando em outro campo”.

“Se Fábio não fosse filho do presidente Lula, não teria inquérito instaurado” — Marco Aurélio de Carvalho, defesa de Lulinha.

A defesa de Roberta Luchsinger foi mais incisiva, chamando a nova investigação de “pesca probatória” e afirmando que “não faz o menor sentido reabrir uma investigação, envolvendo o filho do presidente da República, que já havia sido finalizada, às vésperas do início de um processo eleitoral, a não ser para poder explorar isso politicamente”.

Ora, se a investigação tivesse sido “finalizada” sem provas, por que a PF teria encontrado pagamentos, viagens e contatos com o gabinete presidencial? O argumento de “perseguição política” é tão velho quanto os escândalos que envolvem a família — e já não convence a opinião pública.

PF vs. Mendonça: O Jogo de Poder nos Bastidores

A autorização de Mendonça vem em meio a uma crise entre o relator e a PF. A polícia acionou a Advocacia-Geral da União (AGU) contra medidas do ministro que aumentaram seu controle sobre a Operação Sem Desconto, exigindo que todos os atos sejam juntados ao seu gabinete e que qualquer afastamento de policiais seja previamente comunicado.

Delegados ouvidos reservadamente classificaram as medidas como “intromissão” do magistrado na gestão da PF e uma “violação às competências da instituição”. O ministro, por sua vez, havia cobrado celeridade na análise de cerca de 1.700 itens apreendidos — e a PF respondeu que não tem pessoal para cumprir o prazo de 60 dias, precisando de mais de 40 agentes, quando tem apenas 11.

A movimentação da PF contra o próprio relator do caso revela o desconforto com a condução firme de Mendonça — um ministro conservador nomeado por Bolsonaro, agora no centro de uma investigação que atinge o núcleo do governo Lula.

O Histórico do “Calcanhar de Aquiles”

Lulinha não é novato em investigações. Em 2005, durante a CPI dos Correios, seus negócios com a Telemar (atual Oi) vieram à tona — e ele escapou do indiciamento por pouco. Em 2019, a Lava Jato cumpriu mandados contra ele por suspeita de que a Telemar teria feito pagamentos de R$ 132 milhões a seus sócios em troca de decisões governamentais favoráveis. O caso foi arquivado em 2022, com base na suspeição do ex-juiz Sergio Moro.

Agora, o passado volta a assombrar o filho de Lula — e com contornos mais graves: tráfico de influência no governo do próprio pai.

O que esperar?

Lulinha deve depor à PF nos próximos dias. O inquérito promete vasculhar mensagens, contatos, pagamentos e a relação do filho do presidente com o “Careca do INSS”. A pergunta que ecoa é simples: se não há nada de errado, por que um lobista acusado de desviar bilhões do INSS pagou viagens e fez negócios com o filho do chefe do Executivo?

O governo Lula já demonstrou preocupação, com o próprio presidente dizendo em dezembro que, “se tiver filho meu metido nisso, será investigado”. A fala, na época elogiada como “postura de não interferência”, agora soa como tentativa de antecipar a defesa.

A “tranquilidade” da defesa pode não durar muito. Afinal, Mendonça já demonstrou que não hesitará em aprofundar a apuração — mesmo que isso signifique enfrentar a PF, o Planalto e a narrativa de perseguição política. O jogo virou.

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