PF identifica 74 ligações entre Jaques Wagner e ex-sócio do Master e viagens à “Ilha da Paixão”

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A Polícia Federal não encontrou um simples contato fortuito entre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o ex-sócio do Banco Master, Augusto Lima. O que as investigações da Operação Compliance Zero revelam é uma relação de proximidade orgânica e continuada, documentada em nada menos que 74 ligações telefônicas e uma série de benefícios incompatíveis com a dignidade de um agente público que, até pouco tempo atrás, era o principal articulador do governo Lula no Senado .

O que os defensores do petista chamam de “amizade” é, para a PF, o elo que criou o “ambiente propício” para que o parlamentar atuasse em defesa dos interesses do banco . E o detalhamento das benesses recebidas transforma qualquer tentativa de minimização em um exercício de cinismo.

Viagens à “Ilha da Paixão” com avião do empresário

Entre os episódios mais emblemáticos está a viagem do casal Wagner à chamada Ilha da Paixão, em outubro de 2023 . Segundo os investigadores, Augusto Lima colocou um helicóptero à disposição do senador para levá-lo de Salvador até a ilha paradisíaca no litoral de Candeias — propriedade que, embora não estivesse formalmente registrada em nome do empresário, estava sob seu controle e posse de fato .

A troca de mensagens entre as partes é reveladora. Em 11 de outubro de 2023, Wagner enviou um áudio a Lima: “Bom dia, Guga. Tudo indica que Fatinha topa ir no sábado” . Dois dias depois, o empresário repassou o prefixo da aeronave e o horário do voo .

Após o fim de semana, a mulher do senador, Maria de Fátima, escreveu ao banqueiro: “A gente ama vcs” — palavra que a PF registra como evidência da relação pessoal e familiar entre os clãs .

Não foi um episódio isolado. A PF identificou ao menos quatro situações em que Wagner foi transportado em aeronaves de Augusto Lima ou de pilotos vinculados a ele, sem que se encontrasse qualquer comprovante de pagamento por parte do senador .

Apartamento de R$ 2,5 milhões e repasse à nora

A promiscuidade não se resume a caronas. Em novembro de 2024, Wagner enviou a Lima o contato da construtora de um empreendimento de luxo em Salvador com a mensagem seca: “A unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi” . O imóvel, avaliado em R$ 2,5 milhões, é um dos alvos da investigação por suspeita de ter sido pago com recursos ligados ao esquema.

Mas a ponta do iceberg pode ser o repasse de R$ 3,5 milhões para a BN Financeira Ltda., empresa que tem como uma das proprietárias Bonnie Bonilha, nora do senador . O pagamento partiu da PKL One Participações S.A., firma vinculada a Augusto Lima, e ocorreu após cobranças insistentes do enteado do senador, Eduardo Mendonça Sodré Martins, que enviou a Lima uma mensagem dizendo: “Amanhã vence os boletos e são altos” .

O senador tenta se descolar do negócio dizendo que “não tem nada a ver com a empresa da nora” . A PF, porém, trabalha com a tese de que a empresa foi usada como veículo para ocultar a origem do dinheiro destinado a Wagner e seu entorno .

Defesa frágil e “patacoada”

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Wagner admitiu a relação com Augusto Lima e disse que “pegar carona em jatinhos não configura problema” . Afirmou ainda que esteve com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, “duas vezes” .

Sobre o dinheiro em espécie apreendido pela PF — US$ 55 mil e 33,5 mil euros  —, o senador alega ser fruto de diárias do Senado que ele recebia em dólar para “economizar” . A justificativa soa frágil diante do acúmulo de evidências.

O parlamentar classificou a operação como “patacoada” e reclamou da “espetacularização” das fotos com dinheiro sobre a cama . É sintomático que, ao invés de apresentar provas de sua inocência, prefira atacar o método da Polícia Federal.

Impacto político

A gravidade da situação foi tamanha que, na semana passada, o próprio senador deixou o cargo de líder do governo no Senado . Oficialmente, disse que precisava “provar sua inocência” e se dedicar à campanha. Nos bastidores, a permanência era considerada “insustentável” pelo Planalto, que temia que a investigação contaminasse a candidatura de Lula .

A imprensa internacional repercutiu o caso. A Reuters destacou que as suspeitas envolvendo Wagner “trazem o escândalo do Banco Master para o círculo íntimo do presidente pela primeira vez” . A Bloomberg observou que a campanha de Lula “reconheceu que seus esforços para atribuir a culpa pelo escândalo a Bolsonaro se tornaram mais difíceis” .

O que vem agora?

Jaques Wagner foi intimado pela PF a depor presencialmente em Brasília no dia 7 de agosto . Augusto Lima também deve prestar esclarecimentos . A defesa do senador afirma que “provará a inocência” . O problema é que, para a opinião pública, a barra já não é mais a de provar inocência, mas explicar por que um líder governamental mantinha relação tão íntima com um banqueiro investigado por fraudes bilionárias.

Fica a pergunta que o PT não quer ouvir: se Wagner não tinha “nada a ver” com o Master, por que aceitou 74 ligações, jatinhos, uma ilha paradisíaca e repasses milionários para a própria nora? O silêncio — e a “patacoada” — já não bastam para disfarçar o óbvio.

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