A manhã desta quarta-feira (29) começou com o estampido de mandados judiciais em três estados. A Polícia Federal, em parceria com o Gaeco de São Paulo, deflagrou a Operação Conexão Rio Preto, mirando uma organização criminosa suspeita de lavar dinheiro do jogo do azar por meio de empresas de fachada, laranjas e operadores financeiros. O bloqueio de bens determinado pela Justiça ultrapassa a cifra astronômica de R$ 2,09 bilhões .

O que os investigadores encontraram, no entanto, vai além de planilhas e contas bancárias. Por trás dos números, emerge um roteiro que conecta a nova cúpula do jogo do bicho em Mato Grosso do Sul a uma fusão perigosa com o PCC, o TCP e escritórios em São José do Rio Preto e no Rio de Janeiro. E, no centro desse tabuleiro, um nome que insiste em aparecer nas entrelinhas da investigação: o deputado estadual Jamilson Name.
A engrenagem do silêncio
Segundo as apurações, dois núcleos principais da organização atuavam em Campo Grande e em São José do Rio Preto . O modus operandi era sempre o mesmo: empresas do setor da construção civil eram usadas como fachada para movimentar e ocultar recursos ilegais . A estrutura, sofisticada, contava com contadores, operadores financeiros e uma rede de “laranjas” que dificultava o rastreamento do dinheiro.
Ao todo, 80 policiais federais cumprem nove mandados de prisão preventiva e 11 de busca e apreensão. A ação, que conta com o apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de São Paulo, mira residências e escritórios em São José do Rio Preto (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Campo Grande (MS) .
O elo perdido: uma conversa reveladora
O nome de Jamilson Name não consta na lista oficial de alvos da operação desta quarta. No entanto, segundo fontes ligadas às investigações que já se debruçam sobre o assunto desde a Operação Gutenberg – deflagrada em julho de 2026 –, o deputado é uma peça-chave para entender a sucessão do poder e o destino do dinheiro do jogo do bicho na capital sul-mato-grossense.
Em um diálogo reproduzido pelo Gaeco na Operação Gutenberg, o então coordenador estadual da Regulação Assistencial, Ed Carlos Brito Burgatt, e o advogado Gabriel Taquino de Paula discutem percentuais de um negócio bilionário. Em determinado momento, Ed Carlos solta a frase que ecoou nos corredores do Ministério Público:
“Jamilson cresceu o olho”
A frase, segundo o relatório, foi dita em 30 de maio de 2022, em meio a negociações sobre contratos da Editora Avante . Mas o que ela revela, na visão dos investigadores, é um padrão de comportamento: o apetite do deputado por fatias cada vez maiores de um bolo que, agora, parece ter sido todo bloqueado pela Justiça.
O dinheiro que só poderia ser dele – Se as conversas mostram a ambição, os números da Operação Conexão Rio Preto mostram o resultado. Tudo aponta que a conta bloqueada de R$ 2,09 bilhões – ou pelo menos uma parte substancial dela – está diretamente ligada ao clã Name, que durante décadas dominou o jogo do bicho em Campo Grande até ser derrubado pela Operação Omertà, em 2019 .
A lógica é quase matemática: A Queda dos Name: Com a prisão de Jamil Name (falecido em 2021) e seu filho, o controle do jogo do bicho na capital precisou ser repassado. A família Name, com aval de Fahd Jamil, vendeu a operação para o grupo MTS, ligado ao PCC .
O Papel de Jamilson: O deputado Jamilson Name, herdeiro político do clã, nunca deixou de orbitar o negócio. As conversas da Operação Gutenberg mostram que ele estava ativo nas tratativas de contratos públicos, mas o Gaeco suspeita que sua atuação ia além, envolvendo a “reestruturação financeira” do império deixado pelo pai.
O Bloqueio de R$ 2,09 Bilhões: A PF e o Gaeco conseguiram rastrear ativos imobiliários, veículos e, principalmente, contas bancárias que, segundo as investigações, eram usadas para lavar o dinheiro do jogo do azar . A cifra é tão vultosa que, segundo a lógica da investigação, não poderia ser de mais ninguém além do “cabeça de gato”, o herdeiro do império que sempre foi o grande patrocinador do jogo do bicho em MS.

A fusão com o crime organizado
A Operação Conexão Rio Preto também escancara a transformação do jogo do bicho em Mato Grosso do Sul. O que antes era uma contravenção gerida por famílias tradicionais, como os Name e os Razuk, agora se fundiu com o crime organizado.
Segundo a investigação, o grupo MTS – que atua em Campo Grande e São José do Rio Preto – é financiado pelo PCC. O líder do grupo, Henrique Abraão Gonçalves da Silva, o “Rico”, é apontado como o “braço” de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola . A disputa pelo território, que já resultou em assaltos à mão armada, planos de homicídio e a interferência de facções nacionais, mostra que o jogo do bicho deixou de ser um negócio de fundo de quintal para se tornar uma operação de lavagem de dinheiro em escala industrial.
O que esperar – A defesa de Jamilson Name ainda não se manifestou sobre a Operação Conexão Rio Preto. No entanto, o cenário é desolador para o clã que um dia reinou absoluto sobre a jogatina em Mato Grosso do Sul. O dinheiro está rastreado, as conversas estão gravadas e a Justiça, desta vez, parece ter colocado um cadeado na conta que, segundo todas as evidências, só poderia ser do bicheiro Jamilson Name.
A pergunta que fica é: sem os bilhões, com quem ele vai fazer negócio agora?





